segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Martha Medeiros fala sobre a arte de ser parcial



"Achei que não ia dar em nada, mas um dia me pediram autorização para publicar um desses textos e quando dei por mim tinha virado cronista."


Pergunta - O gosto pelas letras sempre coexistiu com Martha Medeiros?

Martha Medeiros: Desde que me conheço por gente, gosto de ler. O encanto começou com Monteiro Lobato e depois nunca mais deixei de emendar um livro no outro. Mas a música também tem um forte papel na minha formação. Me criei ouvindo muita música brasileira, os primeiros discos de Caetano, Gal Costa, Chico Buarque, Rita Lee... Isso também foi inspirador na minha vida.


Pergunta - Da carreira de publicitária ao sucesso como cronista, como aconteceu essa transição?

Martha Medeiros: Antes de ser cronista eu já escrevia poemas, tinha livros publicados, mas era apenas um hobby que eu compartilhava com a profissão de publicitária. A crônica entrou casualmente na minha vida. Um amigo jornalista viu uns textos que eu escrevia em casa, como exercício, e pediu para mostrá-los na Zero Hora, onde ele trabalhava na época. Achei que não ia dar em nada, mas um dia me pediram autorização para publicar um desses textos e quando dei por mim tinha virado cronista sem nunca ter me preparado para isso antes. Durante um tempo ainda me dividi entre a propaganda e a crônica, mas depois essa última começou a me absorver e optei em trabalhar apenas como colunista e escritora. Mas não desdenho do tempo em que fui publicitária, foi uma época importante na minha vida e fundamental como "escola" para apurar meu texto.



Pergunta - O trabalho do cronista é como o artesanato com palavras, mas com a tecnologia os prazos para o fechamento das edições são cada vez mais curtos. Para você, existe uma antítese entre inspiração e transpiração no trabalho?

Martha Medeiros: Prazos não me estressam, ao contrário, me dão um norte. Sou disciplinada por natureza, gosto de estabelecer meus compromissos e honrá-los, não gosto de ficar à deriva, esperando essa tal "inspiração".


Pergunta - Dizem que o filósofo é uma eterna criança que não perdeu a capacidade de observar o mundo como se fosse sempre a primeira vez. Na tua opinião o cronista é um filósofo realista?

Martha Medeiros: Fico meio constrangida em estabelecer essa relação com a filosofia, por respeito à sua profundidade. Crônica é algo mais superficial, o que não significa que seja desimportante. Também levantamos importantes assuntos para serem refletidos, mas eles estão mais associados ao cotidiano do que a uma experiência existencial. De minha parte, prefiro associar minha crônica mais com a psicologia, mesmo sabendo que isso também é uma pretensão. Sou fascinada pela mente humana e creio que, se não trabalhasse com literatura, estaria colocando meus "leitores" num divã.


Pergunta - A crônica conquista os leitores do jornal pela capacidade de recriar realidades a partir de um ponto de vista. Na tua opinião a crônica pode ser considerada jornalismo literário ao estilo realista?

Martha Medeiros: Jornalismo literário é uma boa definição. Não é totalmente jornalismo porque esse ampara-se na imparcialidade, enquanto a crônica é opinião dada e defendida pelo autor, ou seja, é totalmente parcial. E é um campo aberto à experimentações, pode se valer até da poesia, então acho que sim, há alguma literatura na crônica. Mas as melhores são aquelas que trazem uma linguagem mais direta, menos rebuscada: quando falamos em literatura, parece que há a exigência de uma certa solenidade, coisa que nada tem a ver com crônicas de jornal.


Pergunta - A leitura do cotidiano fornece inúmeros elementos para a criação do texto. Na tua opinião qual a maior dificuldade do cronista face a essa supostaimensidão temática?

Martha Medeiros: Essa imensidão temática não é tão imensa assim. Os cronistas repetem os assuntos dos outros, mas o importante é que cada um exponha seu ponto de vista e faça isso com graça, estilo, inteligência e principalmente mantendo sua marca registrada, aquilo que faz com que seu texto, mesmo falando de umassunto trivial e requentado, soe como novo.

Um comentário:

Luiza La-Rocca disse...

parabéns pela entrevista.. Jornalista!!!]beijão..
saudades